quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Passeio Publico / Avenida da Liberdade



Quando após o terramoto de 1755, o Marquês de Pombal e seus colaboradores traçaram o plano da nova cidade, reconheceram a necessidade de criar um logradouro para recreio dos lisboetas, tão ansiosos por jardins e espaços arborizados.
Os terrenos onde então se situavam, entre outras, as Hortas da Mancebia e da Cera e os terrenos pertencentes ao conde de Castelo Melhor, também conhecido por sítio de Valverde, foram por isso expropriados, para aí ser construído e plantado o Passeio do Rossio, logo designado Passeio Público, que ocupou a área limitada a norte pela linha Alegria – Rua das Pretas, e a Sul por onde é hoje a Praça dos Restauradores. Pela sua extremidade setentrional passava a Rua do Salitre, que ia até à Rua das Pretas, sendo que para norte, ainda se sucediam as hortas até ao Vale do Pereiro. Entre o Passeio e as hortas ficava a Praça da Alegria de Baixo, ladeada ao norte por uma fila de prédios. Tudo isso teve de ser deitado abaixo quando, um século depois se fez a Avenida da Liberdade.
É de referir, que foi para a zona da Alegria de Baixo, sitio baixo e alagadiço, e muito provavelmente até a zona onde hoje está a estátua do Marquês de Pombal, que foram lançados os destroços e entulhos provindos das ruínas do terramoto.
Assim, o Passeio Publico, nas confrontações de hoje principiava junto ao primeiro portão do Palácio Foz e acabava no quarteirão da Avenida que é limitado pela Rua da Alegria à esquerda, e das Pretas à direita.
Com o início da construção em 1764, o Passeio foi traço do arquitecto Reinaldo Manuel e conheceu durante os seus cento e dezoito anos de vida duas épocas claramente distintas. Na primeira época, o Passeio que não passou de um espaço modesto e sem animação, descrito por Júlio de Castilho como de ”Ruas muito sombrias, banquetas de buxo simetricamente dispostas, pedestais com vasos e estátuas, em suma, um ar de quinta nobre que era uma delícia”. De facto, até 1836, o Passeio era unicamente um bosque, ladeado de altos muros revestidos pela parte interior de buxo e de louro, com quinze janelas de grade de cada lado, que lhe davam o resguardo necessário e de tradição. Contudo, a Sul, quer a entrada do Passeio, que mais não era que uma cancela, quer a sua frente eram constituídos por uma espécie de tapume de madeira, situação esta provisória, mas que se manteve até1834.
Ainda que seja incontestável que, na Lisboa setecentista, o Passeio Publico foi um melhoramento dos mais rasgados efeitos, na medida em que veio quebrar a monotonia existente nos Lisboetas, descritos por João Paulo Freire na sua “Lisboa do meu tempo e do meu passado”, como “ser bisonho e pouco expansivo, só com dificuldade se juntando, a não ser para assistir ás procissões e autos de fé”, e estabelecer relações de conveniência até ali não existentes, a verdade é o Passeio Público era pouco concorrido.
Leia-se o “Toucador” de 1822 que refere que “Se quisermos falar verdade e ser sinceros diremos: que há em Lisboa umas poucas de arvores plantadas à linha, que a isto se chama o Passeio Publico, onde não vai ninguém; e que a este se reduzem todos os lugares de passeio de Portugal, Brasil e Algarves.”
É de concluir que este Jardim Pombalino falhou na sua função de Passeio Público “numa cidade ainda traumatizada pela catástrofe que a vitimara, e onde a classe média não tinha o costume de espairecer, e ainda mais o seu elemento feminino, sempre recolhido em casa”.
Em 1834, também o clássico Jardim Pombalino não resistiu às novas eras, pelo que no advento da era liberal, acabou por ceder lugar a um novo espaço - o Passeio da Lisboa romântica de D. Fernando II, que o lançou na moda depois das obras que o modernizaram, trazendo-o à vida social, tendo a frequência começado a melhorar, chegando mesmo a ser o lugar predilecto da Lisboa taful.

Assim, sob o risco do arquitecto Malaquias Ferreira Leal, assessorado por uma comissão especial da Câmara, o Passeio Público renova-se: lagos, cascatas, estatuárias diversas povoam-no. Os altos muros pombalinos foram substituídos por muros baixos, encimados por gradeamentos, e completado por portões de ferro forjado com guarnecimentos de bronze.
As obras de aformoseamento foram então iniciadas pela Câmara em Setembro de 1834, ainda que apenas para se deitar abaixo as barracas existentes nas imediações. Só em 1835 tiveram as obras verdadeiro início, tendo sido incorporada uma grande parte do largo do passeio e destinada a jardim.
Em 1836, a Rainha D. Maria II, confiou ao Município a inteira administração do Passeio Publico, de cujas obras de melhoramentos se passaria a encarregar.
Já em 1838 estava o Passeio gradeado a toda a volta e havia sido construído à entrada do lado sul, um lago enorme, que fazia o encanto dos lisboetas desse tempo. O povo da altura cantava:
“Fui ao Passeio ver o repuxo
Fiquei admirado de ver tanto luxo.”
Essa entrada era constituída por três portas de ferro, sendo a do centro mais larga. Entre as portas viam-se duas coroas de louro douradas com o dístico “4 de Abril de 1838”, data de aniversário da Rainha, e dia em que aquelas foram colocadas com grande pompa, marcando a sua inauguração pela Rainha D. Maria II, ainda que as obras no passeio público tivessem continuado sem interrupção ao longo dos anos de 1840.
Ao lado das portas havia duas casas, uma para a guarda e outra para o porteiro e arrecadação. As grades, de 1835, eram, como as das portas, em feitio de lanças, divididas de espaço, por pilaretes de cantaria quadrangulares e coroadas de capitéis, um pouco mais altos. Este gradeamento assentava sobre uma cortina de cantaria com três pés de altura, para o lado de dentro, variando para o lado das ruas consoante o declive do terreno.
O Jardim ficou dividido em quatro quadras e ao centro um lago, com 129 pés de circunferência, com alto pedestal ostentando uma bacia de pedra inteiriça, no meio da qual se erigia uma pinha de onde provinha um repuxo. Às faces do pedestal, acostavam-se as estátuas de tritões e sereias. Estas eram inicialmente destinadas ao chafariz do Campo Sant’ana que contudo nunca chegou a ser montado. São da autoria do canteiro Alexandre Gomes, discípulo de Alexandre Justi, escultor italiano que veio para Portugal em 1474, para assentar a riquíssima capela de S. João Batista em S. Roque e seriam concluídas por João Gregório Viegas quando a Câmara as decidiu colocar no Passeio Público. Estas estátuas estão hoje no pátio do Palácio Pimenta (Museu da Cidade), aguardando uma possível reconstituição.
Entrava-se depois no “bosque”, onde à entrada foram colocadas as estátuas alegóricas aos rios Tejo e Douro, também de Alexandre Gomes e também destinadas inicialmente ao já referido chafariz de Sant’ana, e que ainda hoje se podem admirar na Avenida da Liberdade.
O “bosque” era dividido em “13 ruas ao comprimento e 32 à largura”, sendo o intervalo de “árvore para árvore ocupado com bancadas de buxo e louro”. Neste percurso havia ainda mais “quatro pequenos lagos circulares, dois à entrada e dois à saída, guarnecidos de pirâmide e paredes de buxo”.
O topo Norte do Passeio, ao cimo da rua central, era rematado por uma magnífica cascata, obra ali colocada segundo o plano de melhoramentos de Malaquias Leal em 1840. Tratava-se de um pavilhão de pedra ladeado por duas escadarias que conduziam ao terraço, de onde se usufruía de privilegiadas vistas sobre a baixa e o Tejo. Sob este, na fachada interior, abriam-se três grutas cobertas de folhagem e plantas aquáticas. Na do centro podia admirar-se uma estátua da Deusa Anfitrite, Rainha do Mar, deitando água de um vaso que sustinha nos braços, obra do escultor Francisco Assis Rodrigues, famoso discípulo de Machado do Castro. Frente às grutas, num lago circular, havia dois cisnes, também de pedra e do mesmo autor, que pareciam nadar. As grutas eram caprichosamente enfeitadas com seixos e conchas, que formavam lindíssimos desenhos.
Todos estes melhoramentos traduziram-se também num aumento do Passeio em 30 metros no comprimento e vinte na largura, bem como ao derrube de algumas árvores copadas, que deram lugar a outras de menor porte e a arbustos, trazendo uma manifesta redução do número de área de sombras.
Refira-se a descrição quase rigorosa da Marquesa de Rio Maior, no livro “Memórias da Marquesa de Rio Maior, de Branca de Conta Colasso, de 1930”: “ Um belo dia (…) encontrei o Passeio transformado (…) um elegante gradeamento substituía o muro de pedra; entrava-se por um portão também de ferro (…) havia esplêndidas acácias logo à entrada. E um grande lago com repuxo (…) depois, ao centro, outros lagos com o Tejo e o Douro (…) e chorões. Um coreto magnifico para música. Muitas árvores raras (…) e ao fundo, pela altura da Rua das Pretas, uma linda cascata com avencas.”
É a época de ouro do Jardim Municipal.
Criado o ambiente, o Passeio Público tornou-se o ponto de reunião dos lisboetas de todas as classes.
Era um vasto salão ao ar livre, e centro de cultura e de má-língua. Ouvia-se música, e realizavam-se festas que ficaram memoráveis, os bailes infantis organizados pelo professor de dança Justino Soares, os fogos de artifício do habilidoso pirotécnico José Rodrigues, e as inúmeras festas de caridade. Enchia-se quando, aos domingos, tocava a famosa banda dos marinheiros, dirigida pelo Reinhard. Depois vieram os concertos nocturnos do Cardim; e, rodados anos, em 1879, ficaram célebres os concertos sinfónicos regidos por Madame Josephine Amann.
A Família Real dignava-se a frequentar o Jardim, não sendo raro ver a Rainha e os Príncipes passeando nas frondosas alamedas, momentos imortalizados por Leonel Marques Pereira, na famosa tela que hoje se pode admirar no Palácio de Sintra.
Em 1874-75, encontramos de entre os mais assíduos frequentadores do Passeio Publico, Guerra Junqueiro, Guilherme de Azevedo, Henrique das Neves, Bulhão Pato, António Cândido, Ramalho, Eça de Queiroz, Antero, Gomes Leal e muitos outros, tudo nomes de primeira linha no escol intelectual da época.
Em Agosto de 1851, com a chegada do gás, ficaram também célebres as iluminações do Passeio, tendo-se registado a visita de 15612 pessoas em 3 noites, para o que muito terá contribuído o “sexo amável”, “muitas senhoras das famílias dos mais notáveis da capital”. Refira-se que quando havia iluminações no Passeio, a entrada era paga, e para que a gente do povo não gozasse o espectáculo de graça, as grades eram vedadas por grandes coberturas de lona.
É bom notar que até 1852 a entrada no Passeio Publico era vedada a homens de jaqueta ou sem gravata e a mulheres de capote. Foi o Vereador José Augusto Braamcamp quem acabou com essa disparatada proibição.
De facto, o Passeio era público mas com certas restrições, pois as portas e as grades incutiam aos seus frequentadores um mínimo de moderação e reserva. Em 1874, em sessão da Câmara, é proposta a demolição dessas grades e portas, não se tendo no entanto tomado nenhuma deliberação. Apenas em 28 de Novembro de 1877 foi calculado por Ressano Garcia em oitenta e quatro contos de reis o orçamento total de tais obras, tendo-se tomado a decisão de demolir as grades do passeio.
Na sua fase final, o Passeio tinha decaído muito, principalmente depois da permissão de entrada a toda gente, tornando-se numa espécie de ponto abrigado e refúgio amoroso aos soldados e às amas de leite, que eram, por 1882, as mais assíduas frequentadoras do Passeio Publico. Assim, em 1883 deixava o Passeio Público de existir às ordens do camartelo municipal.
Manteve-se até 1879, ano em que a 24 de Agosto se iniciaram as demolições para dar lugar à Avenida da Liberdade. Esta foi construída por iniciativa de Rosa Araújo, romântico visionário duma Lisboa moderna e presidente do município de então e traçada segundo um plano do arquitecto Ressano Garcia. O primeiro troço foi inaugurado em 28 de Abril de 1886. Na avenida foram abertas uma rua central e duas laterais, separadas por placas arborizadas.
Cada um dos talhões tinha a sua arborização especial: ulmeiros, plátanos, olaias, lódãos, acácias, palmeiras, amoreira das China. Eram sobretudo notáveis pela rica pompa de vegetação e emaranhado do arvoredo os talhões que mediavam entre a Rua das Pretas e o Largo da Anunciada, do lado este, e a Calçada da Glória e a Praça da Alegria, do lado Oeste.

O Passeio Público, verdadeiro e imprescindível local de lazer dos lisboetas românticos, que o viam como uma instituição citadina de sempre, não foi poupado pela edilidade na altura própria para dar lugar à Avenida da Liberdade e, irradiantes dela, a todos os empreendimentos que deram à cidade a sua fisionomia europeia.
Síntese cronológica do Passeio Público
1764 – Desenhado por Reinaldo Manuel, arquitecto da cidade, sobre as então chamadas Hortas da Cera, terras húmidas e alagadiças, que foram elevadas, deitando-se para lá os entulhos do Terramoto, e plantados os primeiros freixos, oferta de Jacomo Ratton, que os mandou vir da sua quinta de Barroca d’Alva;
1807 – Figura já na Carta Topográfica de Lisboa, levantada nesse ano pelo capitão engenheiro Duarte José Fava, edição da Casa do Risco;
1815 – Recebe, por Avisos de 29 de Julho e de 9 de Setembro, nove penas de água municipal para alimento das suas fontes e dos seus lagos;
1834 – Pensa-se na sua modificação, alargamento e embelezamento, que serão executados pelo Engenheiro Malaquias Ferreira Leal, auxiliado por uma comissão especial da Câmara. Em Setembro a Câmara manda deitar abaixo todas as barracas que pejavam nas imediações;
1835 – A Câmara Municipal destina numa das suas sessões de Outubro, 2.332$000 reis para os projectos de melhoramentos;
1836 – Em Novembro a Câmara pede ao Governo a cedência das estátuas que eram inicialmente destinadas ao chafariz de Sant’Ana, e que se encontravam fechadas num barracão, para serem colocadas no lago junto a entrada Sul, a que o Governo anuiu;
1838 – A 4 de Abril é inaugurada pela Rainha D. Maria I, a nova frente e entrada Sul;
1840 – É inaugurada a nova entrada Norte;
1849 – São apeadas a bacia e as estátuas da fonte monumental (junto à porta Sul);
1851 – Em Agosto realizam-se as primeiras iluminações a gás, que ficaram celebres e foram relembradas durante muito tempo;
1852 – Deixa de se fazer na rua principal a revista às tropas da guarnição, e que figuravam depois na Procissão do Corpo de Deus, para evitar estragos e prejuízos de toda a ordem. É também nesse ano em Agosto, por proposta do Vereador José Augusto Braamcamp, que passam a ser admitidas todas as pessoas decentemente vestidas, sem excepção de homens de jaqueta e mulheres de capote. Em Outubro deu-se o primeiro grande desbaste no magnífico arvoredo;
1859 – Na sessão de 3 de Julho o Visconde de Villa Maior, Justino Máximo de Oliveira Pimentel, apresenta uma proposta para se estudar a abertura de uma Avenida que seguisse do Passeio Público, pela parte inferior do Salitre e pelas Terras do Vale de Pereiro até S. Sebastião da Pedreira e Campo Pequeno;
1863 – O Vereador Severo de Carvalho, a 5 de Março, propõe a abertura de um grande arruamento desde o Passeio até S. Sebastião da Pedreira. Na sessão de dia 16 do mesmo mês foi aprovada para dia 20 uma vistoria a fazer nos terrenos destinados a esse melhoramento.
1870 – O engenheiro Bartholomeu Déjante elabora o projecto da Avenida, proposto pelo Visconde de Villa Maior;
1873 - Os deputados Saraiva de Carvalho e Pereira de Almeida, apresentaram no Parlamento uma proposta autorizando a Câmara a fazer as expropriações necessárias para o rompimento de uma avenida de 50 metros de largo, segundo novo plano delineado, desta vez pelo arquitecto Domingos Parente da Silva;
1874 – O Vereador Francisco Simões Margiochi, par do reino, propôs na sessão de 21 de Maio, que se iniciassem as obras e se demolissem imediatamente as grades e cortinas do passeio. Em 9 de Junho, foi recebido na vereação um abaixo-assinado com cerca de 1600 assinaturas, contra tal projecto;
1879 – A 24 de Agosto iniciaram-se as demolições para dar lugar à Avenida da Liberdade;
1882 – A 11 de Novembro começam a demolir-se as vedações e gradeamentos do Passeio;
1886 – A 28 de Abril de 1886, ainda por concluir, é solenemente inaugurada a Av. da Liberdade, com a presença do Rei D. Luís e do Príncipe D. Carlos, e a 25 de Maio realizou-se na Avenida a primeira parada militar.
Fonte: Lisboa do meu tempo e do meu passado, João Paulo Freire, Parceria António Maria Pereira 1932
TEXTO RETIRADO DA PAGINA DA FREGUESIA DE SÃO JOSÉ



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