domingo, 4 de novembro de 2012

Penha de França


A Penha de França, uma das sete colinas de Lisboa, é conhecida há mais de meio século. Integrada no conjunto dos Bairros Orientais da cidade de Lisboa, esta Freguesia assenta em terrenos dispostos sobre camadas do terciário. Situada a 110 metros de altitude é um dos grandes miradouros da cidade. No alto da sua crista ergue-se a igreja do mesmo nome. Daí domina-se grande parte da cidade, obtendo-se magníficos e diversificados panoramas. A maior amplidão encontra-se a nordeste, vendo-se o Alto de São João, e grande parte das margens do Rio, a montante de Lisboa, por Chelas, Marvila, Olivais,m do lado de cá, e na outra margem, Aldeia Galega, Pinhais do Montijo e Alcochete.
 A actual área da Freguesia foi durante séculos uma zona de quintas e hortas onde numerosos Lisboetas se deslocavam para passear. No seu espaço foram erguidos imponentes e majestosos Solares, onde viveram famílias senhoriais. Era uma zona onde nomes ligados ao Infante D. Henrique, como o famoso Diogo Cão, tinham, no século XIV, fixado residência. Pelos meados só século XVIII, a Penha de França e o Poço dos Mouros faziam já parte da cidade de Lisboa, constituindo a sua fronteira oriental. Por esta altura, e ainda durante muito anos depois, a Penha de França apresenta um curioso ordenamento social, nunca aparecendo definida como lugar de gentes pobres e trabalhadoras, como as da Graça.
Como Freguesia, a Penha de França nasce a 13 de Abril de 1918 e constitui-se, como paróquia eclesiástica, em 21 de Agosto de 1937, tendo sido a única Freguesia cível a ser criada em Lisboa entre 1833 e 1859. Neste último ano, a sua área inicial foi reduzida, contribuindo para formar as Freguesias de São João e Alto do Pina.
Apesar da sua recente criação, sobre a Penha de França existem documentos imemoriais que testemunham a grandeza de alguns dos seus lugares. É assim que sabemos, por exemplo, que a actual rua da Penha de França era, no Século XII, um caminho público que ligava Almofala (hoje designada por Graça) ao então e ainda agora poço dos Mouros. A forte presença Mourisca é, aliás, uma constante que se pode verificar pela leitura dos documentos notariais que assinalam a posse, pelos Mouros, de propriedades rústicas no Alperche, mais tarde designado Cabeça de Alperche, mais tarde designado Cabeça de Alperche, local onde foi construída a actual Igreja de Nossa Senhora da Penha de França. A construção deste Templo teve origem no cumprimento de um voto do escultor António Simões, um dos poucos sobreviventes de Alcácer Quibir, que, segundo ele, se deveu ao aparecimento milagroso dum lagarto que o salvou de uma cobra. Nasce, assim, o popularmente conhecido “Lagarto da Penha” que não é mais que um grande Jacaré que se encontra pintado na Sacristia da Igreja. Nos escritos do Século XII constam já também referências ao Vale Escuro.
Durante muito tempo, estes lugares foram pouco povoados. Mas, com o início da construção da Igreja em 1597 e do convento em 1603, assiste-se a um certo desenvolvimento, de alguma forma ligado ao aparecimento de várias quintas, com casas nobres ao longo do Século XVII. A destruição provocada pelo Terramoto de 1755 veio a inflectir esta tendência, para a Penha de França, como para toda a cidade de Lisboa os efeitos foram terrivelmente nefastos.
No dia 1 de Novembro de 1755, uma pura manhã de Outono, o sol tinha surgido a brilhar, dando temperaturas agradáveis às populações. As pessoas começaram desde cedo a fazer os seus preparativos religiosos, já que era dia para isso mesmo. Celebrava-se o dia de Todos-os-Santos, e a Igreja de Nossa Senhor da Penha de França, bem como a maioria das residências, tinham velas acesas, parte essencial do culto. Por volta das 9.30, os animais entram em pânico e os habitantes sentem a terra a tremer, como se milhares de carruagens invisíveis estivessem a passar a toda a velocidade pelas ruas estreitas da zona da Penha de França. Depressa se deram conta do que estava a suceder. A terra começou a tremer mais ainda. Em menos de 2 minutos, que devem ter parecido uma eternidade, os edifícios feitos de madeira e pedra desmoronaram-se. Mas o terror continuou por mais 5 minutos, abrindo fendas nas ruas de Lisboa. Das fendas soltaram-se vapores sulfúreos que acabavam a obra de destruição, como se a Natureza quisesse expulsar os homens daquele lugar.
Não se conhece a verdadeira extensão da tragédia ocorrida na Penha de França.
Presume-se que só na Igreja, onde na altura decorria missa, tenham morrido mais de 300 pessoas das 800 que, a avaliar pelo número de hóstias que faltavam no sacrário, estariam presentes. Muitos edifícios, a exemplo da Igreja, ruíram ou sofreram danos irreparáveis. Foi com a ocorrência do cataclismo que a zona deixou de ser constituída por hortas e quintas. A Igreja de Nossa Senhora da Penha de França ficou totalmente arruinada durante mais de 30 anos.
Em finais do Século XIX, com a construção das “Vilas Operárias”, aparecem os primeiros arruamentos e dá-se um grande surto de desenvolvimento urbano na Freguesia. Mas é preciso esperar, ainda, até 1930, a data a partir da qual se inicia a urbanização maciça da freguesia, com a construção de vários bairros, como o do Gadanho e da Inglaterra.
Este crescimento “desordenado”esteve na origem do aparecimento da maioria das vilas operárias da das casas nobres do Século XVII. Destas, apenas resta a que hoje é a Sede da Junta de Freguesia e na qual funciona a Biblioteca Municipal, tendo pertencido aos Condes da Bela Vista que adquiriram aos Condes de Azurara, tendo-a renovado e dando-lhe um carácter solarengo, na qual construíram o Pórtico Brasonado.
Entre as tradições da Penha de França destacamos a “Procissão do Forrolho”, efectuada de noite, na qual, durante o seu percurso, se batia ao ferrolho das portas para acordar os devotos, e a Taverna do Ferrugento”, onde iam foliões e homens do mar para ouvirem o Fado. A Penha de França, nascida em plena época dos Descobrimentos, assistiu, do Alto do Alperche, junto à sua Igreja, à partida e chegada das Naus que deram novos mundos ao mundo.







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